Querida Serpente do Poço de Santana…

Não sei muito bem como fazer essa mensagem chegar a você. Os Correios não entregam no seu endereço, porque não tem rua nem número, e eu não posso entregar em mãos porque sua casa é muito profunda e você, imagino eu, não tem mãos. Vou então soltar minhas palavras ao vento e esperar que cheguem aos seus ouvidos, pois para falar com quem não é deste mundo um pouco de magia e de fé devem funcionar.

Serpente, o vento me disse uma vez que na verdade você era ninguém mais ninguém menos que aquele espírito indígena, que Santana expulsou daqui para o Vaqueiro poder trazer a criação de gado, a Igreja e a colonização para essas terras. Me disse que você era uma das muitas coisas que foram apagadas e não faladas mas nunca foram embora. Só estão por aí esperando o momento de aparecer.

Aparecer como os que chamavam Tapuias mas eram Tarairiú Otxukayana. Nos relatórios, os governantes disseram que tinham todos morrido na “Guerra dos Bárbaros” ou ido embora para o Ceará, mas era mentira: ainda estão por aqui. Ultimamente os tenho visto cantando e dançando entre as corravearas para dizer que existem e sempre existiram e que não há Seridó sem eles.

E não há Seridó sem eles. Nem sem você, Serpente, símbolo das coisas escondidas e apagadas. Dizem que se seu Poço secar ou se a cheia for tão grande que a água chegue ao altar de Santana, você há de sair e destruir a cidade. Mas eu creio que algumas coisas são mesmo para ser destruídas. Por exemplo, as mentiras que nos contaram sobre os lugares em que vivemos. Você é o símbolo de que as verdades enterradas são destruidoras, mas necessárias.

Seu Poço nunca secou, mas está cheio de lixo. E não haverá uma cheia que leve a água até o altar com esse tempo cada vez mais seco e o rio cada vez mais barrado. Já não há mais os invernos que havia quando você deitou para dormir debaixo do rio, esperando seu destino se cumprir. Já não há mais as plantas que havia, nem os bichos e até nas serras andam querendo mexer, para plantar árvores de metal que enlouquecem o povo.

O povo ainda há, Serpente. As sementes estão no chão esquecidas, enterradas como você. Assim como as memórias. O que eu venho pedir, e digo isso ao vento para que ele te conte fazendo ondas na água do Poço, é que você saia. Saia, independente de seca ou de enchente e venha nos dizer que nome tinha o Poço antes de ser de Santana.

Saia num sábado de Carnaval, junto com a Troça da Serpente, no meio da alegria. Destrua a cidade que já não queremos, destrua o orgulho de ter nome de algum barão português e as ideias tortas de querer ser “civilizados” de um jeito importado que não nos cabe. Destrua os privilégios das mesmas famílias que estão há séculos encarapitadas nos ombros do Vaqueiro lendário.

Dizem que você virá para destruir. Eu acho que você virá para nos salvar. Mudemos o mito, Serpente. Saia e passeie no meio da cidade, contando para nós sobre as coisas que nunca partiram mas estavam enterradas. Se o Carnaval já passou, talvez você queira sair em outubro, para ver a festa do Rosário e os Negros dançando o Espontão?

Espero que esta mensagem te encontre bem. Pense com carinho sobre minha proposta: precisamos de você aqui em cima. Aguardo sua resposta pelo vento, mas ele diz que teme que lhe coloquem cabresto para trabalhar para a colonização. Não temos muito tempo.

Com afeto,

A Voz no Vento

Por Cecília Tavares